Anarcafeminismo: Pensando sobre o Anarquismo

Deirdre Hogan

 

Um princípio importante do anarquismo e que mais do que qualquer outro o diferencia de outros tipos de socialismo é sua ênfase na liberdade e nas relações sociais não hierárquicas. Central ao anarquismo é a rejeição de qualquer hierarquia de poder entre homens e mulheres. Anarquistas acreditam que a liberdade de uma pessoa é baseada na liberdade de todas e que portanto não pode haver sociedade anarquista verdadeira sem um fim a todas as estruturas existentes de dominação e exploração, incluindo naturalmente a opressão das mulheres. Como anarquistas, acreditamos que os meios determinam o fim. Isso significa que não esperamos por alguma revolução futura para enfrentar os problemas do sexismo, mas ao invés disso enxergamos que é importante lutar contra ele no aqui e no agora. Como anarquistas, lutamos para assegurar que nossas próprias organizações e também as campanhas com que nos envolvemos estejam livres de sexismo e hierarquias de poder e que todos os membros tenham igual poder de tomada de decisões.

Reconhecemos que a participação completa das mulheres dentro do movimento anarquista e das lutas sociais de hoje é muito importante. Para moldar a sociedade futura, as mulheres devem estar envolvidas em sua criação e, é claro, sem a participação de metade da população não haverá revolução social. Da mesma forma como acreditamos que a emancipação da classe trabalhadora é tarefa da própria classe trabalhadora, também acreditamos que, essencialmente, o desenvolvimento, a liberdade e a independência das mulheres devem vir delas mesmas. Envolver-se na luta política é por si mesmo um ato de empoderamento. Muitas mulheres na sociedade de hoje não acreditam que possam ter um papel na mudança fundamental das coisas. Entretanto, ao envolver-se, ao assumir nosso lugar – agitando, educando e organizando – nós começamos a tomar controle de nossas próprias vidas no processo de lutar ativamente para mudar a sociedade injusta na qual vivemos.

Somente em uma sociedade anarquista pode a base da opressão das mulheres deixar de existir. Isso é porque as mulheres, devido ao seu papel reprodutivo, sempre estarão mais vulneráveis do que os homens em uma sociedade capitalista, que é baseada na necessidade de maximização de lucro. Direitos abortivos, licença-maternidade remunerada, creche, instalações de cuidado infantil etc., em suma, tudo que seria necessário para assegurar a igualdade econômica das mulheres sob o capitalismo, sempre serão especialmente relevantes às mulheres. Por causa disso, as mulheres são geralmente vistas como sendo menos econômicas de empregar do que os homens e mais suscetíveis a ataques sobre conquistas como estabelecimentos de creches etc.

Além disso, as mulheres não podem ser livres até que tenham controle completo sobre seus próprios corpos. No entanto, sob o capitalismo, os direitos abortivos nunca estão garantidos. Mesmo se conquistas são feitas nessa área, elas podem ser atacadas, como acontece com os direitos abortivos nos E.U.A. A opressão das mulheres sob o capitalismo tem portanto uma base econômica e sexual. A partir dessas raízes da opressão das mulheres, se ramificam outras formas de opressão como, por exemplo, a opressão ideológica das mulheres, a violência contra as mulheres etc. Isso não é o mesmo que dizer que ideias sexistas irão simplesmente desaparecer com o fim do capitalismo, mas sim que somente com o fim do capitalismo podemos livrar a sociedade de qualquer viés institucional que continua a propagar e a encorajar o sexismo.

Como uma sociedade anarquista não será movida pelo lucro, não haverá, por exemplo, qualquer penalidade econômica em ter filhas ou filhos ou em querer passar mais tempo com elas ou eles. Cuidados infantis, trabalho doméstico etc. podem ser vistos como responsabilidade de toda a sociedade e por consequência dar às mulheres e aos homens mais opções no geral.

O anarquismo/anarcafeminismo (que são a mesma coisa – o anarcafeminismo apenas enfatiza o feminismo inerente ao anarquismo) se junta à luta contra a exploração de classe e contra a exploração das mulheres em conjunto. A verdadeira liberdade, tanto para as mulheres quanto para os homens, somente pode vir em uma sociedade sem classe, onde locais de trabalho são autogeridos, a propriedade privada é abolida e as pessoas que tomam decisões são aquelas afetadas por elas.

Claramente, a luta pela liberdade das mulheres requer uma luta de classes pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores. E, em contrapartida, a luta de classes somente pode ser bem sucedida se ela for ao mesmo tempo uma luta contra a opressão das mulheres.

 

Publicado originalmente como
“Anarcha-Feminism: Thinking about Anarchism”
em Workers Solidarity, nº 79, Dublin, 2004
Traduzido por Cami Álvares Santos

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