O Nacionalismo e o Caminho para a Felicidade dos Chineses

Ba Jin

 

A sociedade chinesa está agora em sua fase mais sombria. Sob tais circunstâncias, pessoas jovens tornam-se impotentes e fracas sem o poder de resistir à corrupção. Mesmo as corajosas podem apenas ficarem quietas e se submeterem ao destino. Quando elas são realmente insuportáveis, o suicídio é a única saída. A China está paralisada; onde podemos encontrar felicidade? Algumas juventudes conscientes acreditam que a única maneira de melhorar a situação atual da China é promover o “nacionalismo”, e identificam o “nacionalismo” como o único caminho para a felicidade dos chineses. As vozes do “nacionalismo” se espalharam por toda a nação. Eu tremo com tal pensamento. O “nacionalismo” é de fato o obstáculo ao progresso humano. Sendo membro desta sociedade, eu não posso aceitar o nacionalismo contra a minha consciência. Eu tenho que argumentar contra o nacionalismo e demonstrar o caminho real para a felicidade dos chineses. Minhas palavras são sinceras e eu desejo receber a simpatia das pessoas que se recusam a ignorar sua consciência.

O que é o “nacionalismo”? Tolstoy diz: “Nacionalismo é o local da execução. O que ele pratica é a arte da matança; o que ele discute é as formas da matança. Ele não tem qualquer coisa a ver com a vida real das massas”. Pode soar ridículo, mas captura bem a essência do “nacionalismo”. Exceto pelos militares e políticos de sangue frio, todos os seres humanos odeiam a guerra. A origem da guerra é frequentemente encontrada no “amor pela nação”. Se os seres humanos se amarem e trabalharem juntos, não pode haver guerra. Depois do nascimento da nação durante a “era do desejo animalesco”, o “nacionalismo” emergiu, cuja causa e propósito tinham tudo a ver com o egoísmo e a ganância. Por exemplo, quando um país quer expandir eu território, ele sacrifica seu povo para invadir outras nações e satisfazer seu desejo animalesco. Se ele vence, somente os militares e os políticos podem apreciar o fruto do sucesso. Se ele é derrotado, o povo tem que sofrer pelo suporte aos gastos militares. Isso beneficia as massas? Pobres massas, será que elas percebem que o nacionalismo é a arma que mata seus amados pais, irmãs e irmãos? Um exemplo prova que o “nacionalismo” é um monstro assassino: no final do século 19, o Estado alemão promoveu o sentimento nacionalista e introdução o sistema de conscrição. Todos os homens adultos tinham que servir ao exército; mesmo eruditos e monges tiveram que obedecer às ordens de militares e políticos para matar civis. Quando recebiam a ordem de esmagar greves operárias, eles tinham até mesmo que matar seus próprios parentes que participavam das greves. Se esse não é um exemplo de crueldade, eu não conheço o que no mundo pode ser mais cruel.

Meu argumento contra o nacionalismo é que o desenvolvimento do mesmo não irá levar os chineses à felicidade, mas à tristeza. Há apenas um caminho para a felicidade e somente podemos chegar lá pela destituição dos seguintes sistemas:

1- O Estado: o Estado é uma organização de autoridade que protege a lei, que nos assassina tirando nosso direito de subsistência, que nos insulta e que ajuda os capitalistas a pilhar os pobres. O Estado cria leis para restringir nossa liberdade; ele nos força a lutar contra nossa natureza pacífica; ele nos encoraja a competir com o povo de outras nações enquanto deveríamos ajudar uns aos outros. O Estado sempre age contra nossa natureza; ele nunca fez nada para nos beneficiar. Além disso, o Estado é a origem do nacionalismo. Temos que destituir o Estado se quisermos buscar a felicidade.

2- A propriedade privada: a propriedade privada é a recompensa do saque. A propriedade era originalmente compartilhada por todo o povo. Entretanto, alguns homens, ou usando sua inteligência ou sua força, começaram a ocupar a propriedade pública ou tornaram muitas pessoas sem-teto. Eles também começaram a contratar pessoas para trabalhar para elas. Os produtos que os trabalhadores produzem são apenas desfrutados por seus patrões. Esse é o mais injusto exemplo do mundo. Além disso, o sistema de propriedade privada faz as pessoas competirem umas com as outras; o crime aumenta e a moralidade declina. Também consideramos que o Estado depende do sistema de propriedade privada para sobreviver. Então, uma vez que abandonarmos a propriedade privada, iremos facilmente destituir o Estado.

3- A religião: a religião limita as mentes das pessoas e impede o progresso humano. A religião nos ensina a acreditar na superstição enquanto deveríamos procurar pela verdade; a religião nos encoraja a ser conservadores quando deveríamos agir de maneira progressiva. Os cristãos dizem: “Deus é poderoso; Deus é a verdade, a justiça, a bondade, a beleza, o poder e a vida, enquanto o homem é a enganação, a injustiça, o pecado, a feiura, a impotência e a morte. Deus é o mestre e o Homem, o escravo. O homem nunca pode encontrar a justiça e a verdade por si mesmo; a eternidade é dada pelo poder de Deus. Deus cria o mundo e envia reis e oficiais para representá-lo. Então, o povo também deve se tornar o escravo de nossos reis e oficiais”. (Isso é o que o rei Carlos I da Grã-Bretanha quis dizer por “direito divino dos reis”.) Essa é a essência do cristianismo. O poderoso cristianismo exemplifica outras religiões. Bakunin está certo em dizer que se houvesse um Deus real, nós deveríamos destruí-lo. Vamos tentar!

Os sistemas acima são nossos inimigos. Nós devemos destituí-los para encontrar nosso caminho para a felicidade. Depois que eliminá-los, iremos redistribuir a riqueza, dar ao povo a autonomia para se organizar e se ajudar. De cada de acordo com sua habilidade, a cada de acordo com sua necessidade. O indivíduo busca beneficiar a sociedade; a sociedade busca proteger o indivíduo. Isso não é felicidade? Mas para alcançar a felicidade, isso nos custará um sangue enorme. Bakunin disse: “A revolução é o esforço mais excitante e agradável! Você preferiria se arrastar pela sua vida, se curvando sob o poder maligno, ou arriscar sua vida honestamente lutando contra o demônio sem olhar para trás?”. Que excitante e corajoso! Espero que nossos amigos juntem-se a nós com espírito ardente para cumprir o esforço mais excitante e mais agradável da revolução. Marchemos juntos para o caminho da felicidade!

 

Publicado originalmente como
“Nacionalism and the Road to Happines for the Chinese”
em Awakening the People, nº 1, setembro de 1921
Traduzido por Cami Álvares Santos