Lilian Wolfe Provavelmente Foi Motivada pela Preocupação Animalista

Jon Hochstartner

 

Nascida em 1875, Lilian Wolfe, cujo nome é escrito de maneiras diferentes em fontes distintas, foi uma feminista, anarquista e vegetariana britânica. De acordo com George Woodcock, ela era amiga e colaboradora do influente anarcocomunista Piotr Kropotkin. Em vista de sua residência na Colônia Whiteway, uma comunidade inspirada por Liev Tolstoi, pode-se pressupor que sua dieta foi inspirada na preocupação pelos animais.

A seriedade com que Wolfe parecia considerar seu vegetarianismo pode ser vista em sua constância na dieta durante seu encarceramento pela oposição à Primeira Guerra Mundial. “Anarquistas em torno do jornal Freedom tinham sua própria organização antiguerra”, disse Sheila Rowbothan. “Lilian Wolfe, uma ex-sufragista que se tornou anarquista, foi aprisionada [em 1916] por distribuir panfletos antiguerra às tropas. Grávida e solteira por princípio, ela permaneceu vegetariana na prisão e foi forçada a beber água de repolho para se nutrir.”

Apesar de eu não mais colocar tanta ênfase na importância do vegetarianismo ou do veganismo prefigurativo, eu devo admirar sua tenacidade nessa ocasião, mesmo que fosse para o que vejo agora como um fim quase completamente simbólico. Quando passei meras 40 horas na cadeia por meu envolvimento no movimento Occupy Wall Street (OWS), em 2011, tenho certeza de que traí meu veganismo prefigurativo em diversas vezes, que naquele momento eu levava muito a sério, pelo menos publicamente. Eu abjurei as ofertas que obviamente continham produtos animais, tais como caixas de leite de vaca e sanduíches de queijo de vaca. O anterior provocou muitas piadas, contrastando o 1 % de gordura do leite e a fraseologia característica do OWS sobre a divisão econômica da sociedade. Mas eu comi sanduíches de manteiga de amendoim que desconfio que eram feitos com mel. O pão deles também podia conter produtos animais. Eu só queria evitar problemas.

Quanto tempo Wolfe ficou sob custódia não está claro. Ela “foi sentenciada a £25 ou dois meses e foi para a prisão, mas lá descobriu que estava grávida (aos 40 anos de idade), então pagou a multa e foi liberada”, de acordo com Donald Rooum. Ela administrou a Freedom Press, que se identificava com o comunismo libertário, durante grande parte de sua vida. “Por mais de vinte e cinco anos, Lilian Wolfe foi o centro da administração da Freedom Press em seus vários recintos em Londres”, disse Nicolas Walter. “Ela era a pessoa da qual toda organização depende – a trabalhadora completamente confiável que coordena o escritório, que abre e fecha a loja, atende o telefone e o correio, faz contadoria e mantém as pessoas em contato. Ela mantinha contato pessoal com as milhares de pessoas que liam o jornal.”

Quando o socialista George Orwell ficou doente de tuberculose em 1949, uma doença que mais tarde reivindicou sua vida, o jovem filho de Orwell, Richard Blair, foi viver na Colônia Whiteway, perto do sanatório onde seu pai estava se tratando. Ele foi colocado sob os cuidados de Wolfe. Deve-se mencionar que Orwell era hostil ao que a Whiteway representava. “Quem dera as sandálias e as camisas cor de pistache pudessem ser colocadas em uma pilha e queimadas, e cada vegetariano, abstêmio e Jesus rastejante fosse mandado para sua casa em Welwyn Garden City para fazer seus exercícios de yoga em silêncio”, disse Orwell. “Assim como ocorre com a religião cristã, a pior propaganda para o socialismo são seus aderentes.”

De qualquer maneira, Blair pareceu apreciar o tempo que passou em Whiteway. “Pelo que posso lembrar, eu fui perfeitamente feliz lá e até frequentei um jardim de infância por algumas semanas, até o meio de agosto”, disse Blair. “Eu me lembro de esperar regularmente com alguém para pegar um ônibus para visitar meu pai e, ao chegar lá, sempre lhe perguntava onde doía.”

Orwell descrevia Whiteway e a própria Lilian Wolfe com não pouca condescendência. A comunidade era “algum tipo de colônia anarquista coordenada, ou financiada, por uma velha, cujo nome esqueço, que mantém a Livraria Freedom”, dizia Orwell. Para Walter, essa era uma reviravolta bastante estranha. “Como é bom saber que Orwell foi ajudado no final de sua vida por uma mulher de grandes princípios que não apenas era anarquista, mas pacifista, e também vegetariana e abstêmia”, disse Walter. “Uma ironia perfeita para fechar o caso de Orwell e os anarquistas!” Wolfe morreu em 1974, aos 98 anos.

 

Publicado originalmente como
“Lilian Wolfe Likely Motivated
by Animalist Concern” em
Vegan Feminist Network

Traduzido por Cami Álvares Santos

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